O DESENVOLVIMENTO DO MONASTICISMO E O IMPACTO NO OCIDENTE

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O DESENVOLVIMENTO DO MONASTICISMO E O IMPACTO NO OCIDENTE

Mensagem  Ash_admin em Seg Dez 13, 2010 6:28 pm

O DESENVOLVIMENTO DOMONASTICISMO E O IMPACTO NO OCIDENTE



Aose falar em congregações religiosas, principalmente as monásticas, a primeiracaracterística que nos vem à mente é a “fuga do mundo”. Concebemos essas formasde vida associadas à solidão e mesmo ao deserto. Isso é verdade, em parte, mas nãocondiz com a totalidade da realidade. Tomando como texto base o verbete “Mongese Religiosos” escrito Lester Little (2006) tentaremos compreender um pouco maisda história e do papel dessas figuras na sociedade, aparando, vez por outra,algumas arestas que venham aparecer.


Oeremita e o monge possuem um aspecto em suas formas de vida em comum: asecessão do mundo cotidiano para escolher uma vida de exercícios – fenômenoesse chamado de “tensão vertical” pelo filósofo Peter Sloterdijk. Essesindivíduos possuem uma vida tensionada por valores que polarizam suaperspectiva de mundo, enxergando-o a partir de um gradiente onde eles tendem abuscar o pólo mais positivo (elevado) – nesse caso uma relação mais próxima deDeus. A saída do mundo é, antes de mais nada, por um desejo de relação maisíntima, mais direta com o Criador – ao contrário do que afirmara Littler aodizer que era uma forma de protesto. Mas podemos ir ainda um pouco mais longe eentender o sentido dessa tensão.



Nohomem existem exigências originárias, chamada também de experiência elementar que “são como uma centelha que põe em ação omotor humano; antes delas não se dá nenhum movimento, nenhuma dinâmica humana”(GIUSSANI, 2009:25). A ação humana é uma ação que busca, sempre, a satisfaçãodo desejo, desejo de plenitude do agente homem; e, para o cristianismo, aresposta para esse desejo de felicidade chama-se Cristo, i.e., Deus. É nessesentido que aquele indivíduo resolve afastar-se do mundo, onde na verdade o queele objetiva é estar mais próximo de Deus.



Porém,se o monge e o eremita possuem em comum essa “separação” do mundo, a forma comoessa se dá acontece de maneira significativamente diferente, posto que oeremita escolhe a vida solitária e o monge vive a solidão juntamente com seus semelhantes,dentro de uma congregação, i.e., “1) encontram-se associados numa açãocomunitária permanente, sobre cujodecurso 2) influem ativamente dealguma maneira” (WEBER, 2009:312). São Bento, no capítulo I de sua Regra, expõeclaramente essa diferença entre o gênero dos cenobitas e dos anacoretas [1],mas sobre essa regra falemos posteriormente.



Aorigem do monasticismo cristão data do século III no Egito, tendo como um dosmais célebres precursores Antônio. Essa forma fora motivada após o fim dasperseguições aos cristãos; por isso que a figura do monge passou a serassociada, entre outras, com a do mártir. Agora, ao invés da morte rápida pelogládio na arena, teriam eles que suportar o suplício das alfinetadas diárias,dentro do cotidiano.



Adivulgação dessa forma de vida se deu pelos inúmeros viajantes que, depois deterem tido algum contato com aquela experiência (seja por escritos, seja porvivência), retornando do oriente, contavam aos ocidentais sobre taisacontecimentos. Isso não foi bem aceito por todos, inclusive dentro dahierarquia eclesiástica, que “Quando acontecia de não conseguirem barrar omonasticismo (...), os bispos manifestaram abertamente sua desaprovação e seudesgosto” (LITTLER, 2006: 227-228). Mas tais desaprovações não eram unânimes,tampouco totais, assim como exemplo temos a Irlanda que, desconhecendo aestrutura social romana, incorporou uma forma de igreja claramente monasterial.Tal forma foi se disseminando por toda a Europa, com várias regras diferentessendo seguidas. Entre essas, uma ganhou notório destaque: a Regra de São Bento [2].



Mastal repulsa foi aos poucos sendo mudada pela própria imposição da realidade queo Império do Ocidente enfrentava [3].Foi a partir do papa Gregório Magno que os beneditinos começaram a ter umgrande papel dentro da Igreja. Esse papa enviou alguns monges de seu antigomosteiro para terras onde o cristianismo não estava verdadeiramente enraizadoou mesmo onde só havia pagãos - a exemplo da Bretanha. E sua iniciativa tevesucesso, pois, em menos de um século, todos os reinos anglo-saxões estavamconvertidos ao cristianismo. O que, num primeiro momento, poderia parecer algoestranho à forma de vida monástica, por sua “disciplina, obediência, erudiçãoreligiosa e humildade tornavam-nos particularmente aptos a efetuá-la” (LITTLER,2006:229). A partir desses missionários a Igreja nessas terras começou a serimplantada e, como conseqüência de sua origem, os bispos e autoridades eclesiásticasdesta nova igreja que nascia eram favoráveis ao monaquismo. Também aexperiência nas terras francas, onde, devido às influências de clãs na Irlanda,os mosteiros se implantaram nos campos e conseguiram evangelizar os seushabitantes.



Masfoi durante o império Carolíngio que o monaquismo viveu seu grande momentosocial. O imperador Carlos Magno “atrai para sua corte os religiosos e osleigos mais doutos do ocidente, como Alcuíno de York, que se tornará abade deSaint-Denis; o historiador Paulo, o Diácono, etc” (ELIADE, 2003:109). Forauniformizada a regra beneditina para todos os mosteiros e esse novo modelomonástico, que permaneceu por três séculos sem contestação, tinha comoprincipal característica o aspecto litúrgico. Toda a sociedade passou a viverum pouco dessa ritualização, cada um em sua condição permitida e o AntigoTestamento tornara-se a grande inspiração para muitos gestos. Porém esse modelocomeçou a ser criticado e algumas vozes começaram a se levantar tal comosurgiram movimentos dissidentes.



Noinício do século XIII uma nova realidade começa a emergir. Onde, até então,havia uma necessidade de oração passou a vigorar uma maior necessidade de umaforma mais presente no cotidiano. Duas figuras se destacam: a primeira é SãoDomingos de Gusmão – fundador da Ordem dos Pregadores ou ordem dos dominicanos– que percebera como a maior necessidade de sua época a pregação, quereligiosos pudessem fazê-la, de forma racional, fundada na teologia, através deum discurso lógico; a outra figura é São Francisco de Assim – fundador da Ordemdos Frades Menores ou Franciscanos – e que via na vida simples, regrada peloEvangelho a forma mais verdadeira de viver. Mas outras ordens de mendicantescomeçaram a surgir, a tal ponto que o II Concílio de Lyon (1274) interveio parafrear essa proliferação de ordens.



Asprincipais diferenças entre as ordens mendicantes e as monásticas eram queestas estavam quase sempre afastadas das cidades, o vínculo era com o mosteiro(devido ao voto de estabilidade), já aquelas se situavam dentro das cidades e ovínculo era com a ordem. Com o crescimento e desenvolvimento das cidades osconventos passaram a ser mais presentes na vida social que os mosteiros, não sópor estarem nas cidades, mas por também criarem novas formas de espiritualidades,mais acessíveis aos leigos. Mas também novas críticas surgiram com o passar dotempo, com outras vozes se levantando.



BIBLIOGRAFIA BÁSICA:

LITTLER, Lester K.. Monges e Religiosos, In:______LEGOFF, J., SCHIMTT, J-C.(coord.) Dicionário Temático do Ocidente. Bauru: Edusc;São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002. Vol.2. V.2, p225-241.


BIBLIOGRAFIACOMPLEMENTAR:

BENTO, Santo. A Regra de São Bento: latim-português.Trad. D. João Evangelista Enout. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2003.

BRÜSEKE, Franz J. Uma Vida de Exercícios: aantropo-técnica de Peter Sloterdijk. IN: Semana de Ciências Sociais, VIII,2010. São Cristovão: Universidade Federal de Sergipe, 2010. CD.

ELIADE,Mircea e COULIANO, Ioan P. Dicionário das Religiões. 2ª edição. São Paulo:Martins Fontes, 2003.

GIUSSANI, Luigi. OSenso Religioso. Brasília:Editora Universa, 2009.

SÃO GREGÓRIO MAGNO, Papa. Vida e Milagres de SãoBento. 5ª Ed. São Paulo: Artpress, 2006.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o “Espírito” doCapitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos dasociologia compreensiva. Trad. Régis e Karem Elsabe Barbosa. Brasília: EditoraUniversidade de Brasília, 2009. Vol.1.


[1] “Ésabido que há quatro gêneros de monges. O primeiro é o dos cenobitas, isto é, omonasterial, dos que militam sob uma Regra e um Abade.
O segundo gênero é o dos anacoretas, isto é, doseremitas, daqueles que, não por um fervor inicial da vida monástica, masatravés da provação diuturna de um mosteiro, instruídos então na companhia demuitos aprenderam a lutar contra o demônio e, bem adestrados nas fileirasfraternas, já estão seguros para a luta isolada do deserto, sem a consolação deoutrem, e aptos para combater com as próprias mãos e braços, ajudando-os Deus,contra os vícios da carne e dos pensamentos” (BENTO, 2003:23)

[2] “A ascese cristã [sem dúvida abrigou emsi, tanto na manifestação exterior quanto no sentido, elementos extremamentevariegados. Mas no Ocidente ela,] carregou, sim, em suas formas mais avançadasatravés da Idade Média [e em vários exemplos já na Antiguidade] um caráter racional. Nisso repousa a significaçãohistórico-universal da conduta de vida monástica ocidental em seu contraste como monaquismo oriental [- não em seu conjunto, mas em seu tipo geral]. Emprincípio, já na regra de São Bento, e mais ainda entre os monges cluniacensese [mais ainda entre] os cistercienses e, finalmente, da forma mais peremptória,entre os jesuítas, ela se emancipara seja da fuga do mundo desprovida de planoconjunto, seja da virtuosística tortura de si. Tornara-se um métodosistematicamente arquitetado de condução racional da vida com o fim desuplantar o status naturae, desubtrair o homem ao poder dos impulsos irracionais e à dependência em relaçãoao mundo e à natureza, de sujeitá-lo à supremacia de uma vontade orientada porum plano, de submeter permanentemente suas ações à auto-inspeção e à ponderaçãode sua envergadura ética, e dessa forma educar o monge – objetivamente – comoum operário a serviço de Deus e com isso lhe assegurar – subjetivamente – asalvação da alma” (WEBER, 2004:107-108).

[3] “Realmente,os dias do Império do Ocidente estavam contados. Se, no fim do século IV, osmonges do Egito, sujos e barbudos, que se aventuravam até Roma, eram lapidadospela turba, a situação muda radicalmente quando os muros dos mosteirostornam-se o único refúgio possível contra a anarquia que sucede à queda doImpério” (ELIADE, 2003:108)






Por Lucas de Almeida Santos
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