A INTERMINÁVEL QUESTÃO DA MORTE

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A INTERMINÁVEL QUESTÃO DA MORTE

Mensagem  Ash_admin em Dom Dez 12, 2010 11:26 am




A relação com a morte é um dos pilares fundamentais da cultura. Em todas associedades desenvolve-se uma visão particular acerca da morte, todo pensamentoreligioso traz em seu discurso alguma concepção acerca da pós-vida.

Com o período medievalnão poderia ser diferente, os estudos das concepções acerca da morte assim comoas manifestações culturais que se produzem em volta dela constituem um campofértil para qualquer historiador. Fértil e difícil, pois por se tratarpredominantemente de um evento mental, não se pode ter acesso a este senão porfontes indiretas e potencialmente duvidosas.

A essa tarefa se propõeMichael Lauwers, autor do verbete “Morte e Mortos” no dicionário temático doOcidente Medieval. Lauwers é professor de história medieval da universidade deNice, na França. Seus trabalhos giram em torno do culto aos mortos no ocidentemedieval e os usos sociais da bíblia, entre suas principais publicações estão La mémoire des ancêtres, le souci des morts. Morts, riteset société au Moyen Age, diocèse de Liège e Naissance du cimetière.Lieux sacrés et terre des morts dans l'Occident médiéval.

Longe de querer fazerum tratado sobre o tema, o autor se propõe a descrever a visão da morte e arelação com os mortos que se estabelecia no Medievo, assim como sua mudança aolongo deste período. A principal idéia dotexto é de que a época medieval abrigou duas posturas em relação à morte assimcomo suas respectivas relações dos vivos com os mortos: A primeira, baseada noscostumes e herdeira da antiguidade, em que se ressaltavam os laços familiares eo culto aos ancestrais, os vivos guardam uma dívida para com os mortos, uma vezque tudo o que tinham deviam a eles, cabia então a família cuidar dos “ritos depassagem”, afim de que os fantasmas não voltassempara atormentá-los.

A segunda postura erapropriamente cristã, desenvolvida pelos Pais da Igreja. Essa asseveravaprincipalmente os laços religiosos dos mortos e dos vivos. Muito mais que afamília, era a comunidade cristã que se encarregava dos ritos, sua principalfunção era de interceder pela alma do defunto para que alcançasse a Salvação, eisso era feito apenas por orações, missas e doação de esmolas por intermédio daIgreja. A relação com a morte e os mortos na Idade Média foi de uma maneira oude outra a relação entre essas duas posturas e modo como se confrontaram ouinteragiram.

Em um primeiro momento,durante a Alta Idade Média, esses dois modos conviveram em certa harmonia, aigreja tolerava os ritos consuetudinários, pois “se não aliviavam os mortos, osritos funerários podem consolar os vivos”. Por essa época a morte não era umafonte de temor ou desespero, mas uma parte indispensável da vida e da salvaçãoda alma.

A relação dos vivos comos mortos também era muito próxima. Cabe aqui falarmos sobre o chamado “culturados ancestrais” em que a Europa estava mergulhada antes da chegada docristianismo e ficou por muito tempo durante o período medieval. Nesse modelo aregras a serem seguidas e as referências por parte do grupo vinham quase quetotalmente de seus antecessores, seus ancestrais. Eram eles o paradigma, os quegarantiam a fertilidade da terra e os grandes benfeitores da comunidade,portanto, era lógico que os vivos buscassem um maior contato com eles, sejaatravés de ritos (danças folclóricas), seja enterrando-os bem próximos de suas moradas. O culto aossantos foi outra forma dessa relação. Esse modelo cultural terá grandeinfluência ao longo da Idade Média.

A partir do século VIIIao XI a igreja passou a se preocupar mais com esses ritos e a denunciar commais rigor as práticas pagãs. A celebração de missas em honra aos defuntospassou a constituir o principal meio dos vivos tentarem salvar as almas de seusfinados, com o tempo, ocorreu uma institucionalização dessa prática, com omonacato se especializando nessa interseção. A Igreja era responsável porrepassar os bens doados pelo parentes, de modo a essa riqueza material setransformasse em riqueza espiritual e abrisse ao morto as portas do céu.

Nessa Europa dominadapelo império carolíngio os usos fúnebres também exerciam um papel social dedomínio político. As honras reais serviam como uma maneira de aliança com aIgreja e o povo. Ao doar terras e riquezas para que se realizassem ascelebrações, os soberanos reforçavam seus laços com o clero ao mesmo tempo emque “honravam os ancestrais” e pediam prosperidade em seus domínios. Com otempo, os nobres passaram a usar desses mesmos artifícios; ao cabo que na ordemsenhorial dos séculos XI e XII os ritos fúnebres serviam para hierarquizar elegitimar o poder dos senhores sobre seus feudos.

Os séculos XII e XIII viramnascer um novo modo uma nova visão da morte, em parte resultante dos costumesdos séculos anteriores, em parte devido a uma nova atitude mental. O fato é quenesse período o controle da Igreja sobre os ritos funerários atingiu seu auge,Ao clero tornou-se a grande ponte entre esse mundo e o outro, sua presença eraindispensável. Isso, segundo Lauwers, causou uma sobrecarga no clero, a pontoda “institucionalização dos usos funerários” torna-se mais forte, surgindoentão um “mercado funerário”, e com ele a massificação da cultuação fúnebre.

Tal massificação fezcom que o caráter hierárquico dessa cultuação se perdesse, qualquer um poderiadar o máximo de honra a seus entes queridos (contanto que pudessem pagar),concomitante a isso o novo modo de vida, a migração para as cidades fez com quesurgisse uma individualidade, e com ela uma nova forma de lidar com a morte. Depasso natural rumo a Deus, a Morte agora surge como grande inimiga da vida, aextinção da pessoa em sua singularidade atormentava os homens desse tempo (eainda atormenta hoje). A desagregação do mundo consuetudinário se completa, emuma Europa regida pelo Estados Nacionais e pelo direito, não existe mais “asleis dos ancestrais”, a ligação dos vivos com os mortos se rompe completamente.

Lauwers aborda bem asrelações entre os vivos e a Morte, e Hilário Franco Junior segue esse modelo,no entanto, há de se notar que ambos não se aprofundam nesse assunto. Seja porprecaução, seja por humildade, o fato é que o tema “Visão de Morte” abre oleque para uma discussão quase infinita acerca dos costumes e da mentalidade dequalquer ponto de vista, ainda mais do homem medieval, e a discussão promovidapor Lauwers ainda que eficiente, deixa a desejar em profundidade, apenas apassagem para um visão de morte dramática daria outro artigo, e tanto ele comoHilário (este ainda mais) não promovem essa discussão, talvez por ambas ostextos estejam em obras de iniciação ou manuais.

No entanto a de seelogiar a forma clara e concisa com que o autor trata do assunto, aoidentificar as duas grandes posturas em relação a morte, Lauwers lança luzsobre um emaranhado de textos e fontes sobre o assunto, uma vez que taisposturas em certos períodos se entrelaçam e se complementam é mérito seu tentar(e na nossa visão, conseguir) identificar e organizar essas vertentes. Ahistória das mentalidades é um terreno perigoso e incerto de lidar nahistoriografia e Michael Lauwers o consegue realizar com sucesso.





ReferênciasBibliográficas
LAUWERS,Michael. Morte e Mortos, In:______LEGOFF, J., SCHIMTT, J-C.(coord.) DicionárioTemático do Ocidente. Bauru: Edusc; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado,2002. 2v. V. 1,p. 243-259.
FRANCOJR., Hilário. As estruturas cotidianas. IN:______. A Idade Média: Nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense,2006. P.168-189.
Wikipédia,Michel Lauwers, retirado de http://fr.wikipedia.org/wiki/michel_lauwersacesso em 12/07/2010 às 19:23




Por João Victor Martins Soares
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