DIABO, CONSTRUÇÃO DE IMAGENS E APLICAÇÃO NO IMAGINÁRIO DO MEDIEVO

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DIABO, CONSTRUÇÃO DE IMAGENS E APLICAÇÃO NO IMAGINÁRIO DO MEDIEVO

Mensagem  Ash_admin em Dom Dez 12, 2010 7:21 am

Twisted Evil


Essa que é uma das criações mais interessantes e mais originais do cristianismo, o Diabo, é uma das figuras mais importantes do Ocidente Medieval. O historiador francês Jérôme Baschet em seu verbete “Diabo” do Dicionário Temático doOcidente Medieval, faz uma análise da trajetória desta personagem durante o medievo, como sua imagem foi construída e como foi aplicada no imaginário das pessoas.


Tomando como base os textos da Bíblia, percebe-se que essa personagem, é de certa forma ignorada no Antigo testamento, com a exceção do fato de ser aplicada a figurado Diabo, como interprete da serpente no Jardim do Éden. É dentro desse contexto do pecado original, aliás, que se constitui e se inicia a história segundo Agostinho, que tem como início A Queda (que se torna o evento inaugural da história do universo), e tem como fim o Apocalipse. Segundo essa idéia a história, agora adotada como linear seria uma via de peregrinos, definindo-se entre presente, que seria umaatenção, o passado que seria uma memória, e o futuro que seria uma expectaçãode retorno à Cidade De Deus. No Novo Testamento por sua vez, marca uma etapa decisiva, enfatizando o embate entre as forças celestiais e aquele que São Paulo chama de “o deus desse mundo” (2 Coríntios, 4,4), esse mundo seria portanto a Cidade dos Homens.


Importante não cair no equívoco de interpretar esse universo como um teatro desse belicismo entre Deus e Satã, não podendo fazer dentro do cristianismo medieval uma variante entre duas religiões dualistas. O cristianismo sempre se esforçou para se distinguir dessa dualidade, a doutrina cristã sustenta que Deus é fonte e senhor de todas as coisas, enquanto Satã é uma criatura, um anjo decaído,submetido a Deus e que não pode agir sem sua permissão. Também se devem destacar aqui as incessantes advertências da doutrina, não impediram o desenvolvimento de uma faceta, isso o Baschet conseguiu perceber, sem dúvida vivida de forma muito sensível, que dá ao Diabo um vasto campo de autonomia.


Não se deve considerar o Diabo de modo isolado; é preciso, ao contrário, levar em conta seu lugar no sistema religioso global e, portanto descrever as redes de ligações ao qual está integrado. Devemos relacionar essa figura com o conjunto das realidades sociais e políticas, em particular com os conflitos que agitam as sociedades medievais e nos quais o Diabo desempenha seu papel.


Outra característica apontada no verbete que chama muita atenção é com relação à dificuldade que se encontra em como o autor brinca, apresentar uma "carteira deidentidade do Diabo "(nome, nascimento, marcas particulares), que acaba tornando-se uma tarefa paradoxal, já que como sugeriu o título do trabalho, é um ser de metamorfoses. Percebe-se uma variante no decorrer da história no quediz respeito a nomenclatura deste: No Novo Testamento assim como nos textos medievais, encontramos termos de origem grega como Diabolus (“que separa”) edaemon (espíritos bons ou maus, intermediários entre deuses e homens, que particularmente me remete diretamente ao Sócrates). Pode também ser designado por expressões que lembram que pertence à categoria dos seres espirituais e angélicos spiritus malignus, immundus,o termo hebreu há-sâtân (“oacusador”), etc. Lúcifer é o nome do mais luminoso dos anjos, antes de sua queda, mas continua a ser usado para designá-lo mesmo depois que se tornou príncipe do Inferno.


Creio que quando me referi a Lúcifer utilizando das palavras de São Paulo acima,quanto o mesmo chama o Diabo de “deus desse mundo”, merece uma ressalva, por um fato que mudou totalmente a história da humanidade. Lúcifer é apenas príncipe dos pecadores, pois Cristo resgatou através de seu sacrifício o direito que o Diabo tinha sobre a humanidade, concepção essa que domina toda a idade média.


Dentrode todo esse contexto, o Diabo acaba exprimindo tudo o que a consciência julganegativo e não pode admitir como emanado dela ou de Deus. Lançando mão de algumas características de Freud, os demônios são formas personificadas e projetadas para fora de si os desejos reprimidos. As pulsões demonizadas são por muitas vezes de natureza sexual, claro entendendo o conceito de sexualidadede Freud como esse alívio de tensões pelo qual nosso corpo necessita, uma válvula de escape das tensões acumuladas no nosso corpo, como se constata nos numerosos relatos de sonho ou nos casos das “poluções noturnas” (emissõesinvoluntárias de esperma durante o sono), que os monges atribuem a intervenção do Diabo.


Aconteceque Satã está sempre associado à questão do poder. Ao contrário do corpo eclesial, ele é também a imagem do mau poder. Na época feudal Lúcifer é em geral descrito como o vassalo pronto à deslealdade, traição, e que quer igualar-se ao seu senhor, em vez de lhe prestar obediência. E é sobretudo apartir do século XIV que se manifesta a majestade de Satã, mesmo se suas primícias teológicas já são encontradas em Tomás de Aquino. Este admite, com efeito a existência de uma ordem e de um poder de comando no mundo demoníaco: o céu e o inferno não se opõe mais, então, como dois contrários (Ordem x Desordem).


Podemosentão tentar “fechar” um raciocínio acerca da figura do Diabo na Idade Média: ODiabo medieval pode ser definido como outra instância, que funciona em múltiplos níveis, tanto individuais como coletivos. De um lado, os fantasmas diabólicos lançam raízes no lugar mais profundo dos seres; a figura do Diabo oferece solução para os conflitos íntimos e ajuda a consciência a se construir, a pensar a si mesma. Deoutro lado, a figura terrível e poderosa do Diabo, unificando contra si todo panteão cristão, duplicando negativamente as instituições, participa da afirmação das modernas formas de Estado e de sua violência necessária.



king Ashley Trindade




REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

LEGOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude (dirs). Dicionário Temático doOcidente Medieval. Bauru, SP: EDUSC, 2002. Volume I.
BASCHET, Jérôme. ACivilização Feudal: do ano mil à Colonização da América/ Jérôme Baschet; tradução Marcelo Rede;prefácio Jacques Le Goff. – São Paulo: Globo, 2006.
BIBLIOGRAFIA:AGOSTINHO, Santo. IN:______Confissões. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004.
FREUD, SIGMUND AInterpretação dos Sonhos, Edição C. 100 anos, Imago-RJ.1999.





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