O crescimento demográfico na Idade Média

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O crescimento demográfico na Idade Média

Mensagem  Ash_admin em Dom Dez 12, 2010 10:22 pm

O crescimento demográfico na Idade Média



Introdução


Analisaremos nessa resenha o crescimento demográfico durante a Idade Média com base em parte da obra “A civilização feudal: do ano mil à colonização da América” escrita por Jérôme Baschet. Além da obra citada usaremos dados obtidos em obras mencionadas na bibliografia complementar desse trabalho.
Jérôme Baschet é um historiador medievalista cuja especialidade é a iconografia. Teve o privilégio de estudar com Jacques Le Goff. Leciona na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris, e também na Universidade Autônomade Chiapas, em San Cristóbal de las Casas, no México. Baschet escreveu obrasimportantes como “Lieu sacré, lieu d’images, les fresques de Bominacco” (Lugarsagrado, lugar de imagens, os afrescos de Bominacco) em 1991, “Les justices del’Au-delà, les représentations de l’enfer en France et en Italie, XIIe-XV e siècles” (As justiças do Além, as representações do Inferno na França e na Itália, séculos XII a XV) em 1993, e “Le sein du père. Abraham et la paternitédans l’Occident medieval” (O seio do pai, Abraão e a paternidade no Ocidente medieval) em 2000. Além de trabalhar com o medievo também escreveu um livro, em2002, sobre a rebelião zapatista no México, fato que mostra o seu comprometimentocom os assuntos da contemporaneidade.

Resumo
II – Ordem Senhorial e Crescimento Feudal
O ano mil tornou-se um referencial para explicar o desenvolvimento europeu entre os séculos X e XI. Alguns autores defendem uma tese de mutação social por volta do ano mil, mas há outros que não a aceitam e, explicam que essa aparente mutação decorre do fato de uma crescente abundância de documentos sobre o período.
Os temores de um final escatológico, que supostamente existiram com a aproximação ao ano mil, foi um mito historiográfico que surgiu no século XVII e desenvolveu-se com os iluministas, pois estes desejavam legar uma visão de Idade Média com um “véu de obscurantismo poeirento e de superstições ridículas”. (p. 98) Apesar de alguns documentos mostrarem um crescente sentimento de inquietação e esperanças ao redor do ano mil, verifica-se que esses estiveram presentes durante todo o medievo e, não se pode afirmar que se mostraram mais intenso nesse período que nos demais.
O ano mil é importante por ser uma etapa na consolidação do mundo ocidental cristão. O grande empenho dos clérigos em construir e reformar igrejas nesse período era uma forma destes mostram o seu “ardor” para aproximarem-se de Deus e, o grande valor dado a arquitetura das igrejas revela as características de uma sociedade em ascensão, na qual, se desenvolveu uma forte competição pela sacralização das coisas materiais. É evidente que o ano mil não representou um declínio do Ocidente, mas apenas um novo começo.
O desenvolvimento dos campos e da população(século XI ao XIII)


A pressão demográfica

Há uma grande dificuldade de obter dados demográficos sobre a Idade Média devido a não existência de recenseamentos regulares, mas através de aproximações pode-se considerar que, entre os séculos XI e XIII, a população européia dobrou ou até triplicou em certas regiões. Esses dados são reforçados pela alta fecundidade e pela diminuição das epidemias no período. Mas, a fome não desapareceu completamente nessa época, houve a necessidade das pessoas adaptarem os hábitos alimentares à disponibilidade de alimento, por exemplo, fabricando pães com uva,ingerindo carnes consideradas impróprias para o consumo humano (serpentes, ratos) e até por meio do canibalismo.
Com o passar do tempo, a fome generalizada diminuiu na Europa e, assim, a expectativa de vida da população aumentou:“enquanto ela não ultrapassava vinte anos no século II, apogeu de Roma antiga, ela salta para 35 anos por volta de 1300”. (p.101)

Os progressos agrícolas


A necessidade de alimentar uma população dobrada exigia um crescimento da produção agrícola, mas a forma como a agricultura era praticada no Ocidente não possibilitava a obtenção de maiores rendimentos. Tornou-se necessário ampliaras áreas de plantio, utilizando áreas antes consideradas improdutivas. Essa ampliação das terras cultiváveis somada a um melhor uso de fertilizantes permitiu conseguir melhores rendimentos com a produção agrícola, especialmente com os cereais que eram uns dos alimentos básicos da população. Logo, o processo de associação de cereais diferentes em uma plantação se generalizou, e o sistema de rotação trienal também se desenvolveu e trouxe vários benefícios, pois permitia “duas colheitas por anos, equilibrando, assim, os riscos climáticos”. (p.103)


Várias inovações na agricultura contribuíram ainda mais para o crescimento dos rendimentos agrícolas. O uso da charrua nos solos mais pesados, ao invés do arado, aliado ao desenvolvimento de uma nova atrelagem para a tração animal, que permitiu a substituição dos bois pelos cavalos e, com isso houve um ganho de força e de tempo de produção. Além disso,o uso crescente de cavalos também favoreceu o comércio, pois passado o período da colheita esses animais favoreciam as viagens e, conseqüentemente, a circulação de mercadorias do campo para a cidade. O desenvolvimento das zonas rurais propiciou um crescimento da criação de porcos, outro alimento básico dos cristãos no medievo, e também da produção de vinha, essencial para o cristianismo pelo seu valor simbólico como eucarístia.

As demais transformações técnicas


Na Idade Média não houve verdadeiras inovações técnicas, mas a difusão e generalização de práticas, já conhecidas anteriormente, que se encontravam sem utilidade. Como exemplo disso os moinhos de vento e de água, já que devido à grande disponibilidade de escravos em Roma não era necessário usá-los, mas com o declínio da escravidão na Idade Média mostraram-se bastante úteis e deixaram de ser uma “curiosidade intelectual, sem utilidade prática”. (p. 106) O uso de metais também cresceu, pois com o “centro de gravidade europeu” (p.106) transferido do mediterrâneo para regiões mais ao norte, passou-se a aproveitar a grande disponibilidade de minas nessas regiõese, isso permitiu um aumento do uso de instrumentos de metal, a exemplo das espadas.
As produções artesanais e têxteis também se intensificaram com o crescimento da zona rural e os seus excedentes passaram a favorecer o comércio realizado nos burgos. Além desses fatores, a história do clima, um assunto no qual os homens não podem interferir, também ajudou o desenvolvimento agrícola europeu, pois tudo indica que o clima tornou-se mais quente por volta do século X, e contribuiu ainda mais para a mudança do “centro de gravidade europeu” para o norte.

Como explicar o desenvolvimento?


Não há consenso entre as tendências historiográficas quanto aos motivos que possibilitaram o desenvolvimento demográfico europeu dos séculos XI ao XIII. Segundo o filão historiográfico de Marc Bloch, o aumento da população teria criado a necessidade de aumentar a produção de alimentos. Essa necessidade teria incentivado o homem a desenvolver novas técnicas agrícolas para poder atender a demanda da população em crescimento. Já o filão historiográfico de Lynn White mostra-se contrário as ideias de Bloch, pois para White foi o desenvolvimento de novas técnicas de plantio, iniciado no final da Alta Idade Média, que permitiu aumentar a produção e, assim, bem alimentada a população pôde crescer.


Para Pierre Bonnassie não foi nem o aumento da população que permitiu as inovações técnicas nem as inovações técnicas que permitiram o aumento da população, mas, uma combinação entre esses fatores. Segundo Bonnassie, a grande fome na Alta Idade Média teria levado o homem a buscar aumentar a produção de alimentos, mas somente com a difusão dessas novas técnicas é que seria possível alcançar esse objetivo. Assim, inicialmente se reduziria a fome evitando mais mortes e como uma “população maior” seria possível produzir mais alimentos gerando um novo crescimento demográfico.


Georges Duby explica esse crescimento populacional através de uma “causalidade social”. Com a reorganização dos feudos os senhores feudais passaram a obter uma melhor base de controle sobre a população e teriam exercido uma grande pressão para que a produção fosse ampliada. Baschet considera a teoria da “causalidade social” mais aceitável por se tratar de “possibilidades” e conclui o texto afirmando que é preciso entender a lógica global da sociedade medieval para compreender como os senhores poderiam ter exercido essa pressão.


Crítica
Consideramos que o desenvolvimento demográfico europeu variou bastante durante o medievo e recebeu influência de diversos fatores e, concordamos em parte com o filão historiográfico utilizado por Georges Duby, que é defendido por Baschet, para explicar esse crescimento. Não obstante, acreditamos que mesmo com a existência dessas “causalidades sociais” foi indispensável para esse crescimento a relativa melhoria das técnicas de agricultura aliadas a uns aspectos da mentalidade medieval.


Na primeira Idade Média a fome era tão generalizada na Europa, que a mentalidade medieval considerava santo “sobretudo o homem que conseguia alimentos para seus concidadãos” (Franco Jr., p. 19) e, esse fato, no nosso ponto de vista, é bem elucidativo da relevância que a fome e, conseqüentemente, o “desejo” de obter alimento teve no imaginário do homem medieval. Se nesse período a carência de alimento associou-se ao elemento que consideramos o de maior influência nomedievo, o cristianismo, então, pode-se considerar que o alimento era uma espécie de dádiva de Deus, ou seja, um presente para homens que por recebê-lo “sem custo” da parte de Deus deveriam utilizá-lo para glorificar o seu criador. Assim, somos instigados a nos questionar: se na ausência de alimento o homem desejava conseguir mais alimento, tanto para sobreviver como para “provar” a força da sua fé, então qual o motivo de mesmo com uma grande melhoria na produção de agrícola, devido a melhores condições climáticas, diminuição das epidemias e a um aumento da população, o homem (Senhor feudal) continuar desejando ampliar cada vez a produção de seu feudo a ponto de pressionar os camponeses para aumentá-la?


A nosso ver, essa resposta esta na origem do problema, ou seja, no “desejo”, tanto de obter mais lucros com a venda dos excedentes da produção,mas, essencialmente, no desejo de glorificar a Deus com o “ardor” do trabalho (no caso dos monges) e de ser generoso (no caso da nobreza). “Essa pressão crescente nasceu do desejo, comum ao clero e aos guerreiros, de realizar mais completamente um ideal de consumo, um benefício de Deus ou do seu amor próprio” (Duby, p. 193), se associar esse trecho do Duby com outro do Baschet, referente à construção de igrejas por volta do ano mil, “(...) a reconstrução das igrejas mais belas e mesmo suntuosas não se deve a nenhuma necessidade material, mas antes à emulação dos grupos e das instituições, preocupadas em manifestar, pela beleza dos edifícios dedicados a Deus, o ardor com o qual eles se esforçam para aproximar-se dele”. (Baschet, Pp. 99-100) percebemos que, grosso modo, os europeus necessitavam satisfazer seu “desejo” de obter algo para oferecer para alguém (generosidade), que antes era saciado pela pilhagem, mas que devido à nova ordem social (feudalismo) que se consolidavam com a relativa ausência de guerras não poderia ser satisfeito como antes, sendo necessário encontrar um novo meio de obter algo para oferecer. Soma-se a essa “necessidade mental” as inovações técnicas, que permitiram que a população melhor alimentada vivesse mais, então, os senhores feudais puderam, já que dispunham mais trabalhadores, conceder alguns privilégios a seus servos, que podendo usufruir de mais vantagens do que fosse produzido passaram a produzir mais e a partir disso pôde-se alimentar a população em crescimento. Evidencia-se dessa forma que além das “causalidades sociais” que propiciaram esse crescimento demográfico,existiram também os fatores mentais, que completavam a lógica global da sociedade medieval.

Recomendação da obra


Certamente, o livro de Jérôme Baschet é um ótimo guia para aqueles estudantes de história que desejam aprimorar os seus conhecimentos sobre história medieval, pois além de suas próprias qualidades e inovações (visão de uma longa idade média), é mais didático que outros livros que tratam do medievo, comparado ao livro “Guerreiros ecamponeses” do Duby. Este livro resume-se por um bom aprofundamento temático, boa linguagem e ainda conta com um prefácio de outro grande medievalista –Jacques Le Goff.

ReferênciaBibliográfica do livro:
BASCHET, J. A Civilização Feudal. Do ano mil àcolonização da América. São Paulo: Globo, 2006. Pp. 98-109.

Referências Bibliográficas Complementares:
BASCHET, J. A CivilizaçãoFeudal. Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. Pp.98-109.
FRANCO JR., Hilário. As estruturas demográficas. In:_____.A Idade Média: Nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2006. p.19-31.
Duby, Georges. Guerreiros e Camponeses: Os primórdiosdo crescimento econômico europeu (Séc. VII – XII). Lisboa: Ed Estampa, 1993.
GloboLivros - Editora Globo – AUTORES (JérômeBaschet). Disponível em: < http://globolivros.globo.com/busca_detalhesautores.asp?pgTipo=AUTORES&pgNumero=1&idProduto=494>.Acesso em 13/07/2010 às 15hs e 16min.




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