"O Século IV viu nascer uma verdadeira igreja dentro da igreja ( ou ao lado da igreja): A comunidade dos monges"

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"O Século IV viu nascer uma verdadeira igreja dentro da igreja ( ou ao lado da igreja): A comunidade dos monges"

Mensagem  Ash_admin em Dom Dez 12, 2010 3:02 pm

"O Século IV viu nascer uma verdadeira igreja dentro da igreja ( ou ao lado da igreja): A comunidade dos monges"

Podemosencontrar uma primeira fase do cristianismo, onde “as primeiras gerações decristãos acreditavam pertencer a uma elite revolucionária, idéia que osencorajava diante das perseguições oficiais e dos martírios” (LITTLER,2006:226). Porém, com os Editos de Milão (313) e Tessalônica (380) – onde ocristianismo é legalizado e oficializado respectivamente – a Igreja passa poruma mudança em sua forma de estar na sociedade. Têm-se início ainstitucionalização, a burocratização dessa Igreja (fenômeno impossível deocorrer no período em que era perseguida) e esta começa a absorvercaracterísticas da burocracia romana. Tal fenômeno provoca – em conseqüência doprocesso e da oficialização – uma grande aproximação entre essa “Igrejaburocratizada” e o Estado. Porém, aos olhos de alguns, tais fenômenos pareciamter afastado a Igreja daquela experiência primeira e para tanto essaexperiência deveria ser resgatada.



Algunshomens viajaram ao Oriente e tiveram contato com as experiências de algunseremitas e monges e, ao retornarem ao Ocidente, traduziram esses escritosespirituais. A partir daí deu-se início diversas experiências monacais. Osantigos mártires agora não perdiam a vida nas arenas, mas duma outra forma:através da renuncia voluntária do século, um martírio diário; ao invés da morterápida por um gládio, as alfinetadas do dia-a-dia. Essa nova formaapresentava-se avessa à estrutura da Igreja, a começar pelo local, onde estaera marcadamente ligada à civitas,enquanto aquela ao “deserto”, uma anticidade. “Pode-se ver no monasticismo primitivoao mesmo tempo como um movimento laico e um protesto contra a integraçãocondescendente da Igreja nas estruturas dominantes da sociedade” (LITTLER,2006:227). Claro que para uma parte dos clérigos isso não era bem visto, muitosbispos buscavam barrar o avanço do monasticismo e quando não o conseguiamfaziam publicas sua desaprovação e desgosto.


Porémnoutros lugares isso ocorreu de forma diferente. Na Irlanda, primeiro país nãoromano a se converter ao cristianismo, a forma da Igreja que lá se instauroufoi a Igreja monacal. Na Inglaterra, com o envio de monges por parte do PapaSão Gregório Magno, a Igreja surge de forma bastante semelhante à romana (com aaproximação do Estado, a hierarquia, etc), mas os bispos de lá, por virem deuma tradição monástica, não só aprovam como presidiam igrejas monásticas.Também a igreja franca é influenciada por esses movimentos e o monasticismo écolocado dentro das estruturas da sociedade, ainda que permanecessem fora dascidades, estes desempenhariam um papel importante no campo.


Considerações:

Àsvezes parece ser um pouco equivocado tratar o monasticismo como um movimentoquase revolucionário, onde essa forma se manifesta por causa de um protestocontra uma Igreja decadente. Parece ser uma redução muito grande do sentidodessas ações.

SantoAgostinho, ao fundar sua congregação, tinha por interesse ter tempo para sedebruçar sobre os estudos acerca de Deus. Nem por isso negou ao chamado paraassumir a cátedra de Hipona. Tanto na hagiografia de São Bento como em sua regra,nada se encontra que sustente tal “protesto”. São Bento “vendo que muitos sedeixavam arrastar no estudo para o caminho dos vícios” (SÃO GREGÓRIO MAGNO,2006:15) opta por fugir – não por uma visão da Igreja, mas da sociedade. Outra coisaé que até que ponto essa burocratização da Igreja seria o mal que provocariaesse “protesto”. Em quase toda a regra de São Bento temos um estabelecimento deuma hierarquia burocratizada, a começar do tipo dos monges por ele escolhido: oscenobitas – que vivem sob uma regra (uma legislação) e um abade, fora as outrasfunções determinadas. Também o isolamento não é radical, pois como explicar aspopulações que circunvizinhavam os mosteiros?

Nesseponto parece ser mais razoável tentar compreender o sentido desse movimento. Éum movimento sectário, um grupo de pessoas que, diante da realidade queobservam, percebem-se como insatisfeitas com tal nível e impõem a si uma formamais elevada de vida; uma ascese, isto é, um trabalho sobre si mesmo. Mas parasi, para, nesse caso, estar mais próximo de Deus e/ou viver uma vida maissanta. Não para protestar contra, ou fundar outra instituição.



BIBLIOGRAFIA:

AMALVI, C. IdadeMédia, In:______LE GOFF, J., SCHIMTT, J-C.(coord.) DicionárioTemático do Ocidente. Bauru: Edusc; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado,2002. 2v. V. 1,p537-551.

LITTLER,Lester K.. Monges e Religiosos,In:______LE GOFF, J., SCHIMTT, J-C.(coord.) Dicionário Temático do Ocidente.Bauru: Edusc; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2002. 2v. V.2, p225-241.

PEDRERO-SÁNCHEZ,Maria Guadalupe. O mundo mediterrâneo naIdade Média. IN:______ História da Idade Média: textos e testemunhas. SãoPaulo: Editora UNESP, 2000

SÃOGREGÓRIO MAGNO, Papa. Vida e Milagres de São Bento. 5ª Ed. São Paulo: Artpress,2006.

BENTO,Santo. A Regra de São Bento: latim-português. Trad. D. João Evangelista Enout.3ª Ed. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 2003.

WEBER,Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Trad. Régise Karem Elsabe Barbosa. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2009.




Por Lucas de Almeida Santos
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